Por Zé do Cavaco (crônico, violonista e sambista de mesa de bar)
Hoje, 2 de dezembro, o Brasil inteiro finge que lembra que tem um Dia Nacional do Samba. Finge, porque na prática o samba nunca precisou de data no calendário para existir: ele nasceu sem certidão, foi criado na rua, batizado no terreiro e cresceu dentro da gente mesmo quando tentaram calar. Mas, já que inventaram a data (e foi o saudoso Ary Barroso quem escolheu, em 1964, depois de uma roda histórica na casa do então vereador Luiz Gonzaga no Rio), a gente aproveita para lembrar o óbvio: samba não é gênero musical. Samba é estado de espírito, é religião sem igreja, é política sem palanque, é terapia sem divã.
Em 2025, o samba completa (oficialmente) 108 anos desde que “Pelo Telefone” foi registrado como o primeiro samba gravado da história, em 1916. Mas a verdade que ninguém ousou escrever na partitura é que o samba já existia muito antes. Ele veio dentro dos porões dos navios, escondido nas línguas iorubá, jeje e banto, sobreviveu na Bahia das tias baianas, migrou no colo da Tia Ciata para a Praça Onze e, quando perceberam, já tinha contaminado o país inteiro. O samba é o único vírus que a humanidade nunca quis curar.
Neste 2 de dezembro, enquanto as rádios tocam Paulinho da Viola em loop e os políticos postam stories com pandeiro alheio, o samba de verdade está acontecendo longe dos holofotes: está na laje de Madureira onde um moleque de 14 anos acabou de inventar uma partideira que vai fazer velho de 70 chorar; está na mesa do Bar do Nanão em São Paulo onde um engenheiro civil solta a voz no refrão do Cartola e percebe que não precisa de terapia na terça; está em Salvador, onde o samba duro de Riachão se mistura ao afoxé e ninguém discute quem veio primeiro; está em Belo Horizonte, onde o samba juntou o congado e pariu o Tambor Mineiro; está até em Brasília, onde um servidor público ensina o filho a puxar um samba de roda no quintal de casa, provando que nem o planalto é imune.
O samba, em 2025, está mais vivo do que nunca exatamente porque está mais ameaçado do que nunca. A indústria quer transformar tudo em 2 minutos e 30 segundos de batida pronta no FL Studio. O algoritmo quer que o samba caiba num Reels. Mas o samba é teimoso. Ele precisa de tempo. Precisa de demora. Precisa do erro no repique que vira acerto na hora certa. Precisa da voz rouca, do cavaco desafinado de tanto amor, do tantã que perdeu a pele mas ganhou história. O samba não aceita playback. Ele exige presença. Por isso resiste.
Neste ano, três coisas me deixaram com o peito explodindo de orgulho de ser sambista:
1. O retorno triunfal das rodas de samba de rua pós-pandemia. Em Lapa, Oswaldo Cruz, Beco do Rato, Pedra do Sal, as pessoas voltaram a ocupar o asfalto como quem recupera território sagrado. E voltaram mais novas. Tem menina de 19 anos cantando Dona Ivone Lara melhor que muito veterano. Tem menino de trança puxando corridos de roda que aprenderam no TikTok e agora aperfeiçoam na roda real. O samba está sendo renovado sem perder a raiz. Isso é milagre.
2. O surgimento do “samba de resistência digital”. Sambistas como Moacyr Luz, Teresa Cristina, Nilze Carvalho e uma nova geração (Luedji Luna, Pretinho da Serrinha, Ana Paula Alves) estão usando lives, discos independentes e plataformas para furar o bloqueio das grandes gravadoras. Eles provaram que dá pra viver de samba sem virar personagem de si mesmo. Dá pra ser autoral sem abandonar o partido alto. Dá pra ser contemporâneo sem trair o passado.
3. O samba finalmente sendo reconhecido como patrimônio imaterial em mais cidades além do Rio. Recife criou o Dia do Samba Pernambucano. Belo Horizonte declarou o samba mineiro patrimônio cultural. Porto Alegre está rediscutindo o samba gaúcho que nasceu nos bares do Bom Fim. Até o Maranhão está resgatando o tambor de crioula como primo-irmão do samba carioca. O Brasil inteiro está percebendo que o samba não é carioca. O samba é brasileiro. Ponto.
Hoje, quando alguém me perguntar “qual é o samba do momento?”, eu respondo sem pestanejar: o samba do momento é aquele que está começando agora, na sua rua, na sua cidade, na sua garganta. É o samba que ainda não foi gravado, que não tem clipe, que não tem patrocínio. É o samba que acontece quando três ou quatro pessoas resolvem cantar juntas e, de repente, o mundo faz sentido.
Então, neste 2 de dezembro de 2025, não me venha com homenagem protocolar. Não poste foto antiga com legenda “salve o samba”. Faça melhor: pegue um copo de cerveja gelada (ou de café, se for de manhã), chame alguém que você ama, coloque um samba no volume que incomode o vizinho e cante junto. Erre o tempo. Repita o refrão. Chore se precisar. Ria logo em seguida.
Porque o Dia Nacional do Samba não é dia de lembrar do samba.
É dia de viver o samba.
E enquanto houver um coração batendo no compasso do surdo, o samba estará salvo.
Não porque alguém decretou.
Mas porque a gente nunca deixou ele morrer.
Salve o 2 de dezembro.
Salve o samba.
Salve a gente que não vive sem ele.
Zé do Cavaco
Sambista, violonista de sete cordas e eterno aprendiz
Madureira, 2 de dezembro de 2025.