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Viajar é atravessar fronteiras — não reproduzir preconceitos

Publicada em: 01/01/2026 17:52 -

 

Um guia ético para brasileiros que desejam conhecer o Paraguai com respeito, inteligência cultural e maturidade cívica.

Viajar não é apenas deslocar o corpo no mapa; é deslocar o olhar. Quando um brasileiro cruza a fronteira com o Paraguai, não leva apenas documentos e malas — leva também palavras, gestos, referências, preconceitos herdados e a responsabilidade de representar um país inteiro em cada interação cotidiana. É sobre isso que precisamos falar.

O Paraguai não é um “lugar para comprar coisas baratas”. Não é um “atalho econômico”. Não é um estereótipo folclórico repetido em piadas gastas. O Paraguai é um país soberano, com história própria, língua viva, cultura resistente e uma dignidade que não pede autorização para existir.

Quem não compreende isso deveria, honestamente, ficar no Brasil.

O problema não é viajar — é como se viaja

O turismo, quando mal compreendido, vira uma forma sofisticada de desrespeito. O visitante que ri do sotaque, menospreza a infraestrutura, ironiza os costumes ou compara tudo com o Brasil como se estivesse avaliando um produto defeituoso não está “fazendo humor” — está exibindo ignorância, racismo.

Nenhum país é obrigado a corresponder às expectativas coloniais de outro. Nenhuma cultura existe para servir de contraste depreciativo. O Paraguai não é um espelho imperfeito do Brasil; é outra coisa. E isso deveria ser suficiente.

Palavras também atravessam fronteiras

Comentários aparentemente “inofensivos” — sobre pobreza, corrupção, atraso, aparência das pessoas, língua guarani ou modos de vida — carregam um peso histórico profundo. O Brasil, como país maior e regionalmente dominante, tem uma responsabilidade adicional: não confundir poder econômico com superioridade moral ou cultural.

Viajar ao Paraguai exige uma ética mínima da linguagem:

  • Não zombar da língua guarani — ela é patrimônio cultural vivo.
  • Não reduzir o país a Ciudad del Este, Pedro Juan Caballero, ou qualquer outra cidade fronteiriça.
  • Não tratar trabalhadores locais como figurantes do seu consumo.
  • Não comparar tudo com o Brasil como se isso fosse um padrão universal.

Respeito não é elogio forçado. É silêncio quando não se sabe. É curiosidade sem arrogância. É escuta sem ironia.

Se a intenção é julgar, não vá

Há uma verdade simples que precisa ser dita sem rodeios:
se alguém sente necessidade constante de condenar o Paraguai, sua cultura, seu povo ou sua organização social, essa pessoa não está pronta para viajar — está apenas pronta para reafirmar preconceitos em outro território.

Viajar não é um direito absoluto; é um encontro. E encontros exigem maturidade emocional e intelectual. O estrangeiro que se comporta como juiz deveria permanecer em casa, onde suas opiniões não atravessam fronteiras nem ferem pessoas reais.

O Paraguai não precisa da aprovação brasileira

O Paraguai sobreviveu a guerras devastadoras, apagamentos históricos e estigmatizações persistentes. Ainda assim, preservou sua língua originária, sua memória coletiva e sua forma própria de estar no mundo. Isso não é atraso — é resistência.

O visitante brasileiro que entende isso volta transformado. O que não entende volta apenas com sacolas.

Viajar bem é um ato político silencioso

Respeitar o Paraguai durante uma visita não é um favor — é um dever ético básico. Cada palavra dita em solo estrangeiro revela quem somos quando ninguém nos obriga a sermos melhores.

Quem vai ao Paraguai deve ir para aprender, não para corrigir. Para observar, não para ridicularizar. Para atravessar a fronteira com humildade — e voltar com menos certezas do que levou.

Se isso parece difícil, há uma solução simples e honesta:
fique no Brasil.

O Paraguai continuará lá — inteiro, digno e soberano — sem precisar do julgamento de ninguém.

Em vez de falar mal do Paraguai, cuide dos bairros mais pobres da cidade brasileira onde você vive, porque locais miseráveis assim dificilmente você encontrará até no Paraguai.

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