Tocando Agora: ...

Da “Colônia” à “Casa”: Reposicionando a Identidade Paraguaia em Mato Grosso do Sul (por Tácito Loureiro)

Publicada em: 02/01/2026 13:04 -

 

Uma proposta de reparação simbólica para uma comunidade que nunca deveria ter sido tratada como colonizadora em terras que nunca conquistou


Nas margens do rio Paraguai, onde as águas calmas escondem décadas de história contada apenas pelos mais velhos, existe uma comunidade que carrega consigo um paradoxo identitário fascinante e dolorosamente mal compreendido. Os descendentes de paraguaios que habitam partes do atual estado de Mato Grosso do Sul — especialmente nas imediações de Porto Murtinho e ao longo da fronteira — organizam-se em Associações da Colônia Paraguaia, entidades que há décadas preservam a língua guarani, as tradições musicais, gastronômicas e religiosas de um povo que, ironicamente, nunca colonizou aquelas terras. Ao contrário: aquelas terras é que foram arrancadas de seu país natal em um dos conflitos mais devastadores da história sul-americana.

O presente artigo propõe uma reflexão necessária e, mais do que isso, uma mudança de nomenclatura que pode parecer superficial aos olhos desatentos, mas que carrega um peso simbólico e político de profundas implicações para a autoidentificação dessa comunidade. Propomos que as “Associações da Colônia Paraguaia” passem a denominar-se “Casas Paraguaias” — uma mudança que, longe de ser meramente terminológica, representa o reconhecimento de uma injustiça histórica e o reposicionamento dessa população não como colonizadores em terra alheia, mas como anfitriões de uma cultura que sobreviveu ao exílio forçado.


O Mito da Colonização e a Realidade da Anexação

Para compreender a magnitude da proposta aqui apresentada, é imperativo revisitar os eventos que moldaram a geopolítica do Cone Sul no final do século XIX. A Guerra da Tríplice Aliança, conflito que opôs o Paraguai à aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai entre 1864 e 1870, deixou cicatrizes que, passados mais de 150 anos, ainda não foram plenamente curadas — nem nos territórios, nem nas almas dos povos envolvidos.

Quando o conflito se encerrou, o Paraguai havia perdido aproximadamente 70% de seu território original, incluindo as ricas planícies do Chaco que hoje integram o estado brasileiro de Mato Grosso do Sul. Não houve, nesse processo, qualquer migração paraguaia para ocupar essas terras como colonizadores. O que ocorreu foi uma anexação forçada: violência militar que resultou na incorporação de terras onde viviam — e ainda vivem — famílias paraguaias que, da noite para o dia, passaram a habitar um país cujo governo havia aniquilado sua nação.

Desse modo, o termo “colônia” aplicado às associações de paraguaios em Mato Grosso do Sul carrega uma imprecisão histórica gritante. “Colônia” pressupõe uma população que migra voluntariamente para estabelecer-se em novo território, colonizando, no sentido etimológico de cultivar e ocupar novas terras. O que houve, na verdade, foi uma população que permaneceu em suas terras ancestrais enquanto estas foram incorporadas a um Estado do qual nunca fizeram parte por escolha própria. São, portanto, nativos de um território anexado, não colonizadores de uma nova fronteira.


A Perpetuação de uma Narrativa Injusta

A manutenção do termo “Colônia Paraguaia” nas designações oficiais dessas associações não é apenas uma questão de terminologia ultrapassada; é a perpetuação de uma narrativa que inverte os papéis históricos e prolonga uma injustiça simbólica sobre uma população que já sofreu demais. Quando um descendente de paraguaios em Mato Grosso do Sul participa de uma “Associação da Colônia Paraguaia”, ele é implícita e inconscientemente convidado a identificar-se como colonizador — aquele que ocupa terras alheias — quando, historicamente, é exatamente o oposto: é o descendente de nativos cuja terra foi tomada.

Essa inversão narrativa tem consequências práticas na formação da identidade das novas gerações. Jovens paraguaios nascidos em Mato Grosso do Sul crescem com uma tensão identitária não verbalizada: são ensinados a orgulhar-se de suas raízes paraguaias, mas através de uma estrutura nominal que os posiciona como invasores em terra brasileira — o que é historicamente falso e moralmente problemático. A criança perguntará, naturalmente: “Se somos colonizadores, por que nossos avós falam com saudosismo de ‘voltar ao Paraguai’? Por que a terra onde nascemos é tratada como ‘terra do Brasil’ e não como nossa?”

A resposta a essas perguntas é constrangedora para a história brasileira e exige coragem intelectual para ser enfrentada. As terras do Chaco paraguaio foram incorporadas ao Brasil não por colonização paraguaia, mas por conquista militar brasileira. Os paraguaios que lá viviam não migraram para o Brasil; foi o Brasil que avançou sobre suas casas. Chamá-los de “colônia” é inverter a história com a violência de um eufemismo.


A Casa como Símbolo de Pertencimento e Resistência

A proposta de substituição do termo “Colônia” por “Casa” nas designações dessas entidades não é arbitrária nem meramente estética. A “casa” é, em todas as culturas latino-americanas, muito mais do que uma estrutura física; é o espaço primordial de pertencimento, memória e resistência. Na tradição guarani, o conceito de óga (casa) transcende a moradia material para abarcar a comunidade, o território ancestral e a memória dos antepassados.

Uma “Casa Paraguaia” em Mato Grosso do Sul seria, assim, um espaço de afirmação identitária que não carrega o peso da inversão histórica presente no termo “colônia”. A pessoa que frequenta uma Casa Paraguaia não é um colonizador em terra estrangeira; é um membro de uma comunidade que mantém vivo seu patrimônio cultural em um território que foi — e continua sendo — seu, independentemente das fronteiras traçadas por tratados impostos pela força das armas.

A palavra “casa” também evoca acolhimento, em contraste com a conotação de invasão e ocupação implícita em “colônia”. Uma casa abre suas portas; uma colônia expande-se e se apropria. Uma casa preserva memórias; uma colônia cria histórias novas. A mudança semântica proposta, portanto, não é apenas uma correção terminológica; é uma refundação simbólica do significado dessas entidades para as comunidades que as compõem.


Precedentes Internacionais e o Direito à Memória

A proposta aqui defendida encontra respaldo em movimentos internacionais de recuperação da memória histórica e de reparação simbólica a povos afetados por conflitos e anexações. O tratado de paz que encerrou a Guerra da Tríplice Aliança, assinado em 1870, estabeleceu a incorporação de territórios paraguaios ao Brasil e à Argentina, mas nunca houve, da parte brasileira, um reconhecimento formal das especificidades das populações que habitavam esses territórios — populações que não haviam migrado, mas que foram incorporadas a um novo país contra sua vontade.

Em outros contextos do Cone Sul, movimentos semelhantes de recuperação identitária têm ganhado força nas últimas décadas. No Chile, por exemplo, comunidades mapuche que vivem em territórios anexados no século XIX desenvolveram formas de organização que enfatizam seu status de “povos originários”, e não de “colonizadores” ou “migrantes”. A terminologia utilizada não é detalhe; é o próprio fundamento da construção identitária.

Da mesma forma, em Mato Grosso do Sul, os paraguaios e seus descendentes têm o direito — e o dever para com suas próprias memórias — de organizar-se sob uma nomenclatura que reflita sua verdadeira posição histórica. Não são colonizadores que escolheram vir ao Brasil; são nativos que viram suas terras serem tomadas pelo Brasil. A diferença é fundamental e exige reconhecimento linguístico.


Aspectos Práticos e Implementação da Mudança

Uma proposta de mudança de nomenclatura, por mais carregada de significados simbólicos que seja, deve também considerar aspectos práticos de implementação. As Associações da Colônia Paraguaia existentes em Mato Grosso do Sul — particularmente aquelas registradas em Porto Murtinho, Corumbá, Ladário e Campo Grande — teriam de passar por processos estatutários de alteração de nome.

Contudo, é importante notar que essa mudança não implicaria qualquer alteração na missão fundamental dessas entidades: preservação da língua guarani, organização de festividades tradicionais (como a celebração de São João Batista, padroeiro do Paraguai), manutenção de cursos de dança paraguaia (como a polca e a guarânia) e promoção da gastronomia característica (particularmente o vatapá paraguaio e a chipa). A estrutura permaneceria intacta; apenas a identidade nominal seria corrigida.

Seria igualmente recomendável que a mudança fosse acompanhada de uma campanha de conscientização junto às novas gerações, explicando as razões históricas e políticas que a fundamentam. Não se trata de cultivar ressentimentos ou promover antagonismos com a sociedade brasileira que acolheu — ainda que forçadamente — essas famílias. Trata-se, antes, de construir uma narrativa identitária historicamente precisa, que não imponha às gerações futuras o peso de uma autoincriminação impossível: a falsa sensação de serem “colonizadores” em terra que nunca deveria ter sido descrita como estrangeira.


Conclusão: Por uma História Contada com Verdade

A proposta de transformar as “Associações da Colônia Paraguaia” em “Casas Paraguaias” é, em sua essência, um chamado por justiça narrativa. É o reconhecimento de que as palavras importam, de que a história não é apenas o que aconteceu, mas também o que escolhemos lembrar e nomear. Durante mais de um século, comunidades paraguaias em Mato Grosso do Sul organizaram-se sob uma nomenclatura que inverte sua condição histórica: tratadas como colonizadoras quando são nativas, tratadas como migrantes quando são refugiadas em sua própria terra.

A mudança para “Casa Paraguaia” corrige essa injustiça sem alterar a realidade material das relações entre essas comunidades e a sociedade brasileira. As famílias continuarão a viver em Mato Grosso do Sul, continuarão a contribuir para a riqueza cultural do estado e a manter laços familiares e afetivos com o Paraguai vizinho. O que mudará é a forma como essa realidade é nomeada — e nomear corretamente as coisas é, como já dizia o filósofo, o primeiro passo para compreendê-las.

Aos membros das Associações da Colônia Paraguaia, propomos uma reflexão: é possível construir um futuro de convivência harmoniosa com a sociedade brasileira sem aceitar narrativas históricas que distorcem a identidade de seu próprio povo. Ser paraguaio em Mato Grosso do Sul não é ser colonizador; é ser sobrevivente de uma guerra injusta, guardião de uma cultura que resistiu à anexação, herdeiro de uma história que merece ser contada com verdade — e com o nome que lhe é devido.

Que as portas das Casas Paraguaias de Mato Grosso do Sul se abram, finalmente, para uma identidade que não precisa mais camuflar-se sob terminologias alheias. Que seus membros possam entrar em suas associações sabendo que estão em sua própria casa — uma casa que nunca deixou de ser sua, independentemente das fronteiras que outros traçaram sobre ela.


Artigo de opinião elaborado com base em fatos históricos documentados sobre a Guerra da Tríplice Aliança, a incorporação do Chaco paraguaio ao território brasileiro e a situação das comunidades paraguaias no atual estado de Mato Grosso do Sul.

Compartilhe:
Comentário enviado com sucesso!
Carregando...