Brasília, 24 de janeiro de 2026 - Em um momento de ruptura na ordem internacional, o governo brasileiro estruturou uma estratégia multifacetada para conter a implementação da chamada "Doutrina Donroe" – a política do presidente dos EUA, Donald Trump, de reafirmar o controle hemisférico por meio de pressão comercial, diplomática e militar. A resposta de Brasília combina o fortalecimento de alianças regionais históricas, a diversificação urgente de parcerias comerciais e um diálogo pragmático com governos de todo o espectro político, visando apresentar uma alternativa à visão de mundo baseada em zonas de influência exclusiva.
O estopim da crise foi a invasão militar norte-americana à Venezuela no início de janeiro, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro. O episódio, condenado pelo Brasil e por outros líderes regionais, foi lido como a materialização da nova doutrina, uma releitura agressiva da Doutrina Monroe com o carimbo de Trump. Em reação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou um artigo de opinião no New York Times, no qual defendeu que "a divisão do mundo em zonas de influência é ultrapassada e danosa", atacando o princípio que sustenta a política de poder unilateral.
A Estratégia Brasileira: Diversificação como Antídoto
Diante da ofensiva, o Palácio do Planalto identificou o risco de isolamento continental como uma ameaça real, especialmente em um ano de eleição presidencial no Brasil. Para criar "antídotos", a diplomacia brasileira acionou três frentes principais:
· Salvando o Mercosul com a Europa: O acordo comercial histórico entre o Mercosul e a União Europeia, assinado em 17 de janeiro após 26 anos de negociações, é a peça central da estratégia. Mais do que seus benefícios econômicos, o pacto tem um valor geopolítico crucial: impede a desintegração do bloco sul-americano – ameaçado pelas posições da Argentina de Javier Milei – e diversifica os parceiros do Brasil em um momento de protecionismo global. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o acordo envia um "sinal geopolítico forte" em favor do comércio baseado em regras.
· Aproximação com Potências Médias: A visita do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, ao Brasil em abril de 2026 é outro movimento estratégico. Carney, que criticou a hegemonia dos EUA em Davos, e Lula discutirão um acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Canadá. Ambos os líderes buscam diversificar alianças para defender sua soberania em um cenário internacional volátil.
· Diplomacia Pragmática com a Direita Regional: Contrariando expectativas ideológicas, o governo Lula tem como eixo intensificar relações com governos latino-americanos de direita, como Bolívia, Paraguai e Equador. O objetivo é claro: minar a capacidade do presidente argentino Javier Milei de formar um bloco continental alinhado exclusivamente com Washington. Milei declarou à CNN que trabalha "ativamente" para criar um grupo de países de direita na América do Sul. A resposta brasileira é oferecer uma via alternativa de cooperação "sem ideologia", baseada em interesses comuns.
A Disputa pela Narrativa e os Riscos à Frente
A estratégia de Lula vai além das ações concretas e entra no campo da disputa narrativa. Ao publicar no New York Times, ele falou diretamente às elites do sistema liberal internacional, tentando expor a contradição entre os valores professados e a prática da política de força. Seu argumento é de que normas internacionais aplicadas de forma seletiva deixam de ser regras e se tornam instrumentos de dominação.
Analistas alertam, porém, para os desafios. A América Latina vive um ano eleitoral decisivo em 2026, com pleitos no Brasil, Colômbia e outros países, em um cenário descrito como de "direitas mais raivosas e esquerdas mais moderadas". A intervenção na Venezuela é vista como um sinal de que os EUA e seus aliados tentarão incidir diretamente nessas eleições. Para especialistas como o historiador Miguel Stédile, o governo Lula tem sido usado como um "exemplo de caso bem-sucedido" de como exercer soberania sem confronto direto, mas a pressão só aumenta.
Perspectiva: A estratégia brasileira é um esforço para reposicionar o país como um polo de estabilidade e integração em um continente sob tensão. Seu sucesso dependerá não apenas da habilidade diplomática de Brasília, mas também da capacidade de converter princípios – como multilateralismo e soberania – em poder efetivo e benefícios tangíveis para seus parceiros regionais. A resposta à Doutrina Donroe está sendo construída, portanto, mesa a mesa de negociação, visita diplomática a visita diplomática, em uma tentativa de provar que a cooperação ainda pode ser mais atraente do que a coerção.