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O Vazio Crítico: Como a Ausência de Filosofia, Ecologia e Antropologia Molda a Dourados Direitista

Publicada em: 28/01/2026 07:47 -

 

Dourados, a segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, é um polo universitário de destaque no Centro-Oeste brasileiro, abrigando instituições federais e estaduais de peso, como a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), além de grandes centros privados. Contudo, sob a fachada de efervescência acadêmica, esconde-se um vazio intelectual estrutural que, argumenta-se, não é acidental, mas sim um reflexo e um motor da crescente hegemonia de narrativas conservadoras e de extrema-direita na região.

A tese é direta: a ausência de graduações dedicadas a áreas do conhecimento fundamentalmente críticas – Filosofia, Ecologia e Antropologia – cria um deserto de pensamento complexo, onde a visão de mundo é moldada quase exclusivamente por imperativos técnicos, produtivistas e mercadológicos. Esse vácuo é rapidamente preenchido por ideologias simplistas e autoritárias, pavimentando o caminho para o que se pode chamar de uma deriva política direitista e, em seus extremos, fascista.

O Mapa da Lacuna Acadêmica

Uma análise da oferta de cursos de graduação presencial nas principais instituições de Dourados revela uma lacuna notável nas Ciências Humanas e Ambientais que promovem o pensamento crítico e a alteridade. Nas duas principais universidades públicas, a UFGD e a UEMS, assim como no centro privado UNIGRAN, a pesquisa indica que não há oferta de graduações presenciais dedicadas em Filosofia, Ecologia ou Antropologia (como curso solo).

Embora a UFGD ofereça o curso de Ciências Sociais, que inclui a Antropologia como uma de suas três áreas de formação, e a UEMS conte com cursos como Ciências Biológicas e Engenharia Ambiental, a formação dedicada e aprofundada nessas três áreas críticas está ausente. A UNIGRAN, por sua vez, concentra sua oferta em áreas como Agrárias, Saúde e Direito, alinhadas ao mercado local.

Essa lacuna é significativa. A Filosofia é a disciplina da dúvida radical, da ética e da desconstrução de dogmas. Sua ausência enfraquece a capacidade da sociedade local de questionar as estruturas de poder e as narrativas hegemônicas. A Ecologia, como ciência da relação sistêmica entre seres vivos e ambiente, é crucial em uma região dominada pelo agronegócio e pelo latifúndio, onde o debate ambiental é frequentemente reduzido a uma questão técnica de produtividade, e não de sustentabilidade e justiça. Por fim, a Antropologia é a ciência da alteridade, essencial para entender e mediar conflitos interculturais.

O "Agrobolsonarismo" e o Vazio de Sentido

O contexto político de Dourados é inseparável de sua base econômica: o agronegócio. A cidade é um epicentro do chamado "Agrobolsonarismo", um alinhamento ideológico que combina o poder econômico do latifúndio com pautas ultraconservadoras e de extrema-direita.

Os resultados eleitorais recentes são um termômetro dessa polarização. Nas eleições presidenciais de 2022, Dourados deu uma vitória expressiva ao candidato Jair Bolsonaro, reforçando a tendência de alinhamento com a direita radical. A eleição municipal de 2024, que consagrou Marçal Filho (PSDB), um político com histórico de alinhamento com o agronegócio, apenas confirma a consolidação de um espectro político que prioriza a pauta econômica acima das questões sociais e ambientais complexas.

Nesse cenário, o vazio acadêmico se torna um fator de colaboração. A falta de uma formação filosófica robusta impede o questionamento ético da expansão do agronegócio e de suas consequências sociais. A ausência de Ecologia como curso central permite que a narrativa do "agro pop" prevaleça sem o contraponto de uma ciência ambiental crítica.

A Questão Indígena: O Ponto Cego da Alteridade

O aspecto mais dramático dessa lacuna intelectual reside na relação da cidade com a Reserva Indígena de Dourados, que abriga as aldeias Jaguapiru e Bororó, a maior reserva urbana do Brasil. A convivência tensa entre a expansão urbana/agrícola e a população Guarani e Kaiowá é um dos maiores conflitos sociais do estado.

A Antropologia é a ferramenta acadêmica primária para a compreensão profunda das culturas indígenas, da mediação de conflitos territoriais e da promoção da alteridade. Sua ausência como curso de graduação dedicado simboliza o ponto cego da cidade em relação ao "outro". Sem um corpo de estudantes e pesquisadores dedicados a desnaturalizar o olhar etnocêntrico, a narrativa dominante sobre os povos indígenas tende a ser simplificada, criminalizada ou reduzida a um obstáculo ao "progresso".

Essa desumanização e a incapacidade de reconhecer a complexidade do conflito territorial e cultural são características que se alinham perigosamente com discursos fascistas, que historicamente se baseiam na negação da pluralidade e na imposição de uma única visão de mundo. O fascismo, em sua essência, é a rejeição da alteridade e da crítica.

Conclusão: O Preço da Ignorância Estrutural

A Dourados que vota majoritariamente à direita e que convive com profundos conflitos sociais e ambientais é, em parte, um produto de suas escolhas educacionais. O investimento maciço em áreas técnicas e de mercado, em detrimento das humanidades críticas e das ciências ambientais sistêmicas, não é neutro. É uma escolha que serve à manutenção do status quo econômico e político.

A ausência de Filosofia, Ecologia e Antropologia nas graduações locais não apenas empobrece o debate público, mas também desarma a sociedade civil de ferramentas conceituais essenciais para resistir a narrativas autoritárias. O resultado é uma cidade rica em produção, mas perigosamente pobre em reflexão, onde o vazio crítico se torna o solo fértil para o crescimento de ideologias que prometem ordem e progresso, mas entregam intolerância e simplificação.

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