Semáforos ultrapassados: cuidado, perigo!
Por Onildo Lopes*
A ausência de modernização e a omissão do poder público expõem pedestres e motoristas e agravam a insegurança no trânsito urbano.
Andar a pé pela cidade virou um exercício de adivinhação. Nos semáforos das ruas e avenidas, o pedestre olha para os lados, para o alto, e não encontra resposta. Falta o básico: sinal luminoso que indique quando atravessar e quanto tempo há para concluir a travessia. A cidade não fala com quem anda a pé — e esse silêncio cobra seu preço.
O problema do pedestre
Grande parte dos semáforos foi instalada há décadas, quando a mobilidade urbana não considerava o pedestre como prioridade. Até mesmo equipamentos mais recentes ignoram essa necessidade: não há contagem regressiva, não há indicação clara de travessia, não há orientação visual acessível. O transeunte é forçado a calcular, no improviso, se há tempo hábil para a travessia.
Essa ausência de informação transforma a travessia em risco cotidiano. Idosos, crianças, pessoas com deficiência e trabalhadores ficam expostos a situações perigosas, dependendo mais da intuição do que de regras claras. Caminhar, que deveria ser o modo mais simples de deslocamento, torna-se um ato de insegurança.
O problema dos veículos
Do outro lado da via, motoristas também lidam com semáforos defasados. Muitos não indicam o tempo restante para o fechamento do sinal, dificultando decisões seguras e favorecendo freadas bruscas e conflitos no trânsito. A falta de informação não organiza o fluxo — apenas aumenta a tensão.
Nesse cenário, multiplicam-se as autuações. Multa-se quem erra num sistema que não orienta. Daí nasce a percepção, cada vez mais presente entre os cidadãos, de uma “indústria de multas”: pune-se antes de educar, arrecada-se antes de prevenir.
Um problema político, não técnico
Aqui não há mal-entendido técnico, há omissão política. Vereadores, que deveriam fiscalizar, propor leis e cobrar modernização da infraestrutura urbana, simplesmente ignoram o problema. O tema não rende selfie, não vira placa de obra vistosa, não gera capital eleitoral imediato — e por isso é empurrado para debaixo do tapete.
As administrações municipais seguem a mesma lógica: preferem manter semáforos ultrapassados, que multam mais do que orientam, a investir em sistemas modernos, transparentes e educativos. É mais fácil responsabilizar o cidadão individualmente do que assumir a falência de um modelo de gestão do trânsito baseado na punição.
Quando o poder público se cala, a cidade adoece. A ausência de debate nas câmaras municipais revela um distanciamento preocupante entre representantes e representados. Não se trata de um detalhe operacional, mas de escolhas políticas que impactam diretamente a segurança, a mobilidade e a confiança da população nas instituições.
Modernizar semáforos não é luxo tecnológico; é obrigação administrativa. É dever de quem legisla e governa garantir que regras sejam claras, visíveis e justas. Sem isso, a multa deixa de ser instrumento educativo e passa a ser sintoma de um Estado que falha em orientar, mas é rápido em punir.
Enquanto essa atualização não acontece, seguimos atravessando no escuro — literal e simbolicamente. A pergunta final não pode mais ser evitada: a cidade existe para as pessoas ou serve apenas à lógica arrecadatória e à conveniência política de quem prefere não enfrentar o problema?
Cabe agora à população romper esse silêncio imposto. É preciso cobrar dos vereadores posicionamento público, exigir audiências e pautar o tema na Câmara e nos espaços comunitários. Cidade não muda por concessão espontânea do poder; muda por pressão organizada. Segurança, informação e justiça no trânsito não são favores — são direitos.
O autor é professor da rede estadual de ensino