Tácito Loureiro
As categorias invisíveis que sustentam o atraso nacional
Durante décadas, o debate sobre o desenvolvimento brasileiro orbitou em torno de reformas econômicas, ajustes fiscais, políticas industriais e ciclos eleitorais. Pouco se falou, porém, sobre aquilo que realmente sustenta o funcionamento — ou o travamento — da República: as categorias sociais, simbólicas e institucionais que moldam o comportamento da população e a forma como ela é governada.
O Brasil não é um país pobre por falta de recursos. É um país governável demais.
Governável porque a população brasileira foi historicamente produzida para ser administrada, não para deliberar; controlada, não para decidir; incluída de forma precária, não emancipada. Se determinadas categorias estruturantes fossem radicalmente modificadas, o País se tornaria, para os gestores tradicionais, ingovernável. E exatamente aí residiria a possibilidade de um desenvolvimento verdadeiro.
1. A categoria da ignorância funcional
O sistema educacional brasileiro não fracassa: ele cumpre a função histórica medíocre dele. Foi projetado para isso. Produz alfabetização mínima, competências técnicas fragmentadas e escassa capacidade crítica. Forma trabalhadores, não cidadãos; consumidores, não sujeitos políticos.
Modificar essa categoria — substituindo a ignorância funcional por educação crítica, histórica e científica profunda — tornaria a população ingovernável porque:
- Questionaria narrativas oficiais;
- Exigiria transparência real;
- Não aceitaria soluções simplistas nem salvadores da pátria.
Uma população que compreende economia política, história institucional e mecanismos de poder não aceita ser governada por slogans. Governos teriam de justificar as decisões com dados, debates e responsabilidade. Isso é ingovernável para sistemas acostumados à opacidade — e indispensável para o desenvolvimento.
2. A categoria da dependência econômica
O brasileiro médio vive em permanente estado de dependência: do Estado, do patrão, do crédito, do favor, do programa emergencial. Essa dependência não é um acidente — é um mecanismo de governabilidade.
Modificar essa categoria implicaria:
- Autonomia produtiva real;
- Segurança material mínima garantida;
- Capacidade de recusa.
Uma população que pode dizer “não” ao trabalho exploratório, ao político clientelista ou à dívida abusiva torna-se difícil de governar. Mas também se torna capaz de inovar, empreender, cooperar e planejar o futuro. Desenvolvimento não nasce da submissão — nasce da autonomia.
3. A categoria da desigualdade socioeconômica naturalizada
No Brasil, a desigualdade socioeconômica não é percebida como escândalo estrutural, mas como paisagem. O abismo social foi transformado em normalidade estética e moral.
Modificar essa categoria — tornando a desigualdade politicamente intolerável — criaria uma população que:
- Pressiona por redistribuição real;
- Não aceita privilégios como mérito;
- Questiona heranças, monopólios e castas institucionais.
Isso é ingovernável para elites que dependem do consenso silencioso. Mas é precisamente esse tipo de conflito social organizado que, historicamente, produziu Estados de bem-estar, sistemas científicos robustos e economias sofisticadas.
4. A categoria da despolitização
Talvez a mais decisiva de todas. O brasileiro foi ensinado a confundir política com corrupção, participação com militância cega, e cidadania com voto obrigatório a cada quatro anos.
Modificar essa categoria significaria:
- Politização do cotidiano;
- Participação contínua;
- Fiscalização permanente do poder.
Uma população politizada não é violenta; é exigente. Ela torna o Estado pesado de administrar, lento para arbitrar privilégios e incapaz de governar por improviso. Mas, ao mesmo tempo, cria políticas públicas mais estáveis, instituições mais sólidas e decisões mais racionais.
5. A categoria do medo
O medo é uma tecnologia de governo. Medo da polícia, do desemprego, da pobreza, do fracasso, da exclusão. Uma população amedrontada aceita quase tudo.
Modificar essa categoria — substituindo medo por segurança social, jurídica e existencial — produziria cidadãos que:
- Denunciam abusos;
- Organizam-se coletivamente;
- Enfrentam o poder sem submissão.
Isso é ingovernável para Estados autoritários ou patrimonialistas. Mas é a base de qualquer sociedade inovadora e economicamente dinâmica.
Conclusão: ingovernável não é o caos — é a maturidade
O verdadeiro paradoxo brasileiro é este: o País só se desenvolverá quando deixar de ser facilmente governável. Quando as categorias estruturantes deixarem de produzir passividade, dependência e medo — e passarem a produzir crítica, autonomia e conflito político qualificado.
Não se trata de destruir o Estado, mas de retirá-lo da posição confortável de tutor. Uma população madura não pede permissão para se desenvolver — ela força as instituições a acompanhá-la.
Talvez o maior medo das elites brasileiras não seja a pobreza, a inflação ou a instabilidade. Talvez seja algo muito mais perigoso: um povo que pensa, decide e não aceita ser governado como criança.
E é exatamente esse povo que poderia, finalmente, fazer do Brasil uma república no sentido pleno da palavra.