Reinaldo de Mattos Corrêa*
Em períodos eleitorais, repete-se um fenômeno que intriga observadores atentos da vida pública: indivíduos que mal conseguem organizar a própria trajetória apresentam-se como aptos a conduzir destinos coletivos. A praça pública converte-se em palco onde biografias fragmentadas vestem a fantasia da autoridade, e a insegurança íntima adota o tom da convicção inabalável.
Não se trata de mero ataque moralista, mas de uma constatação recorrente. Basta examinar discursos, trajetórias profissionais erráticas, relações pessoais tumultuadas e um histórico de decisões impulsivas. Ainda assim, a tribuna acolhe tais figuras com aplausos. Como explicar que a incapacidade de gerir a própria existência não impeça — e por vezes até estimule — a ambição de gerir uma cidade, um estado ou um país?
Parte da resposta repousa na confusão entre visibilidade e competência. A cultura contemporânea premia exposição, autoconfiança performática e habilidade retórica. Autoconhecimento, disciplina interior e responsabilidade cotidiana raramente rendem manchetes. O candidato que brada soluções simplistas e encena segurança pode parecer mais preparado do que aquele que reconhece limites e complexidades. A sociedade, sedenta por respostas rápidas, tende a confundir intensidade com preparo.
Há também um mecanismo psicológico conhecido: quanto menor o domínio real sobre determinado campo, maior a tendência de superestimar habilidades. A ignorância protege contra a dúvida; a ausência de reflexão impede a percepção das próprias lacunas. Quem desconhece profundidade de problemas sociais pode imaginar que bastam força de vontade e frases de efeito para resolvê-los. A política, nesse contexto, torna-se extensão do narcisismo, um espelho ampliado onde fragilidades internas são mascaradas por promessas grandiosas.
O paradoxo é evidente. Administrar a própria vida exige organização financeira, equilíbrio emocional, capacidade de escutar críticas, planejamento de longo prazo e responsabilidade por consequências. Governar uma coletividade demanda tudo isso em escala exponencial. No entanto, o ambiente político frequentemente atrai quem busca dinheiro fácil, reconhecimento, poder simbólico e validação externa, não necessariamente quem cultivou maturidade e discernimento.
A história oferece exemplos abundantes de líderes que confundiram convicção com competência. Projetos mal concebidos, decisões precipitadas e incapacidade de dialogar com divergências produziram crises institucionais e sociais. Em muitos casos, a origem dessas falhas pode ser rastreada até traços pessoais ignorados: impulsividade, ressentimento, necessidade constante de aplauso. Quando tais características encontram espaço em estruturas de poder, tornam-se problemas coletivos.
Outro fator contribui para o fenômeno: a política como refúgio para frustrações privadas. Dificuldades profissionais, fracassos empresariais ou carreiras interrompidas encontram na candidatura uma nova narrativa. A campanha oferece sentido e pertencimento. A retórica da missão pública encobre desorientação íntima. Em vez de enfrentar limites pessoais, transfere-se a ambição para o campo institucional.
O eleitorado, por sua vez, nem sempre dispõe de mecanismos eficazes para avaliar preparo real. Debates televisivos privilegiam performance; redes sociais amplificam frases de impacto; campanhas publicitárias constroem personagens cuidadosamente roteirizados. A vida cotidiana do candidato — aquela que revelaria capacidade de administrar conflitos, cumprir compromissos e sustentar projetos ao longo do tempo — permanece fora de foco.
Isso não significa que todo postulante a cargo público seja desprovido de autoconhecimento. A generalização seria injusta. Contudo, a recorrência de perfis despreparados aponta para falha estrutural na seleção de lideranças. A política, em vez de atrair apenas vocações orientadas pelo serviço público, converte-se em arena onde inseguranças encontram palco.
Tal cenário exige reflexão coletiva. Talvez seja necessário valorizar menos o discurso inflamado e mais a trajetória consistente; menos a promessa espetacular e mais a coerência entre fala e prática. Administrar a própria existência com responsabilidade pode não render curtidas, mas constitui indicador relevante de maturidade para o exercício do poder.
Em última instância, a qualidade da representação política reflete padrões culturais mais amplos. Quando a sociedade celebra aparências acima de substância, abre espaço para que a desordem íntima se apresente como projeto de governo. Questionar essa lógica não é ceticismo excessivo; é defesa da responsabilidade pública.
A democracia depende não apenas do direito de candidatura, mas também da capacidade de distinguir entre liderança autêntica e encenação de autoridade. Enquanto a ilusão do comando seduzir mais do que a competência silenciosa, continuará a surgir a figura paradoxal do aspirante a governante incapaz de governar a própria rotina. O desafio reside em romper esse ciclo, elevando o debate e exigindo que a ambição política seja acompanhada de maturidade comprovada na vida concreta.
*Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.