Reinaldo de Mattos Corrêa*
Em Dourados, onde a presença de universidades desenha a paisagem intelectual da cidade, uma ausência persiste de forma inquietante: não existe uma grande biblioteca municipal, central, com acervo amplo, estrutura digital e acesso livre. Esse vazio não é apenas urbano ou administrativo; ele atravessa o próprio regime de circulação do conhecimento e expõe uma contradição difícil de ignorar. Produz-se saber, mas não se garante, em escala pública, o acesso a ele.
Nesse cenário, a responsabilidade não pode ser atribuída exclusivamente ao poder público municipal, embora a ele caiba a execução concreta de políticas culturais e educacionais. Há um outro polo de força, frequentemente silencioso, que precisa ser interrogado: o das universidades e dos cientistas que nelas atuam.
A universidade, ao longo da modernidade, consolidou-se como uma das principais instituições de produção de verdade. Ali se validam discursos, se organizam métodos, se estabelecem critérios do que pode ou não ser reconhecido como conhecimento legítimo. No entanto, esse saber, muitas vezes, permanece circunscrito a circuitos específicos — artigos acadêmicos, congressos, salas de aula — operando dentro de fronteiras que, embora sofisticadas, são também excludentes.
A ausência de uma biblioteca municipal de grande porte em Dourados escancara essa delimitação. Sem um espaço público robusto, o conhecimento produzido nas universidades tende a circular em regimes fechados, acessível sobretudo a quem já está inserido nesses ambientes. O que se tem, então, não é apenas desigualdade de acesso, mas uma espécie de enclausuramento do saber.
Diante disso, o silêncio de parte da comunidade científica local não é irrelevante. Ele participa de uma dinâmica em que o saber se mantém institucionalizado, protegido, mas pouco tensionado em direção à ampliação de acesso. Cientistas não operam fora das relações de poder; ao contrário, ocupam posições estratégicas dentro delas. E, como tal, possuem a capacidade — e a responsabilidade — de intervir no debate público.
Cobrar do poder público municipal a criação de uma biblioteca central, com livros, computadores e internet gratuita, não constitui um desvio da atividade científica. Ao contrário, pode ser compreendido como uma extensão ética dessa atividade. Produzir conhecimento e, ao mesmo tempo, não disputar as condições de acesso a ele é aceitar, ainda que de forma indireta, a manutenção de barreiras que limitam o alcance do próprio saber.
Uma biblioteca municipal não ameaça a universidade; ela a amplia. Cria pontes entre saberes acadêmicos e não acadêmicos, favorece encontros imprevistos, permite que o conhecimento circule para além dos muros institucionais. Trata-se de um espaço onde o saber deixa de ser propriedade de poucos e passa a integrar o tecido social de forma mais difusa e dinâmica.
Em uma cidade como Dourados, marcada pela diversidade cultural e pela presença significativa de estudantes e pesquisadores, a inexistência desse equipamento revela uma falha estrutural. E essa falha não pode ser naturalizada. Ao contrário, deve ser transformada em objeto de crítica, de mobilização, de exigência.
Cientistas, professores, pesquisadores — todos aqueles que participam da produção de conhecimento — ocupam um lugar privilegiado para formular essa crítica e torná-la pública. Podem produzir diagnósticos, elaborar propostas, tensionar o debate político, dar visibilidade a uma ausência que, até agora, tem sido administrada pelo esquecimento.
O que está em jogo não é apenas a construção de um edifício, mas a redefinição das condições de circulação do saber em Dourados. Uma biblioteca municipal grande, central, equipada e aberta não seria apenas um símbolo de investimento cultural, mas um deslocamento nas relações entre conhecimento e sociedade.
Enquanto essa ausência persistir, permanecerá também uma pergunta incômoda: de que serve produzir saber em abundância, se as condições para compartilhá-lo amplamente continuam restritas? Talvez seja precisamente essa pergunta que as universidades locais precisem assumir — não em silêncio, mas como pauta ativa diante do poder público e da cidade.
*Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.