Reinaldo de Mattos Corrêa*
Em uma manhã comum na Avenida Marcelino Pires, em Dourados, uma jovem de vinte e poucos anos para diante da vitrine de uma clínica estética. As fotografias expostas no vidro mostram corpos femininos fotografados em sequência — antes e depois. O rosto das mulheres retratadas não importa. O que importa, naquelas imagens, é a transformação da silhueta. A moça olha. Entra. E, ao atravessar da rua para dentro do estabelecimento, não está apenas buscando um procedimento. Está respondendo a uma pergunta que a sociedade lhe faz diariamente, de maneiras que raramente se reconhecem como perguntas: o corpo que você habita é aceitável?
A indústria do corpo no Brasil movimenta cifras que rivalizam com setores produtivos tradicionais. O país ocupa posições de destaque mundial em procedimentos estéticos, consumo de suplementos alimentares, número de academias por habitante e adesão a regimes alimentares de diferentes naturezas. Em cidades médias como Dourados, esse fenômeno se reproduz com fidelidade notável: clínicas de estética proliferam em avenidas comerciais, academias de musculação disputam clientes com academias de crossfit, aplicativos de contagem calórica convivem nos celulares com grupos de reeducação alimentar. O que esse mercado produz, contudo, vai muito além de serviços de saúde ou bem-estar. Produz, de forma sistemática, uma categoria social: o corpo aprovado.
A construção do corpo aceitável não é fenômeno novo, mas ganhou dimensões industriais e velocidade inédita no tempo presente. Em outras épocas, padrões corporais eram transmitidos por normas religiosas, códigos de classe ou tradições culturais específicas. Hoje, a produção desse padrão opera por meio de um conjunto articulado de instituições — clínicas, academias, consultórios de nutrição, plataformas digitais e indústria farmacêutica — que transformam o processo de adequação corporal em rotina cotidiana e responsabilidade individual. O resultado é que grande parte das pessoas passa a carregar o peso de uma obra permanentemente inacabada: o próprio corpo.
Existe uma lógica disciplinar sofisticada nesse processo, e ela raramente se apresenta como imposição. Ao contrário, a produção do corpo aceitável se oferece sempre como libertação, cuidado e autoconhecimento. A linguagem dominante nos ambientes de saúde estética é a linguagem do empoderamento: "cuide-se", "invista em você", "seja a melhor versão de si mesmo". O verbo mudar aparece conjugado na voz ativa, como se toda transformação fosse resultado exclusivo de decisão pessoal e disciplina individual. O que essa gramática apaga, de maneira eficaz, é a existência de uma norma prévia — uma medida social do que é aceitável — sem a qual a ideia de melhorar o corpo simplesmente não faria sentido.
A academia de musculação é talvez o espaço onde essa lógica se torna mais visível. Em Dourados, como em qualquer cidade brasileira de porte semelhante, as academias não são apenas lugares de exercício físico. São ambientes de socialização, competição simbólica e conformação identitária. O corpo trabalhado, exibido e comentado dentro desses espaços funciona como capital social. Frequentar uma academia de certa reputação sinaliza pertencimento a determinado estrato social. A composição corporal obtida pelo treino transforma-se em marca de distinção. E a disciplina exigida para manter essa composição é narrada como evidência de caráter — como se o músculo fosse, também, prova moral.
O consultório de nutrição e as dietas disseminadas nas redes sociais completam esse circuito com uma camada adicional de complexidade. A alimentação, que em qualquer cultura é prática carregada de significados sociais, afetivos e simbólicos, foi progressivamente enquadrada em sistemas de classificação que dividem alimentos entre permitidos e proibidos, corpos entre disciplinados e indisciplinados, pessoas entre comprometidas e negligentes. A proliferação de protocolos alimentares — do low carb ao jejum intermitente, da dieta cetogênica ao veganismo performático — criou um campo minado onde comer tornou-se ato permanentemente avaliado. Não apenas pelo profissional de saúde, mas pela rede de relações sociais inteira.
A questão que raramente atravessa os consultórios, as recepções das academias e as vitrines das clínicas estéticas de Dourados é a seguinte: quem definiu as medidas do corpo aceitável, em que momento esse padrão foi eleito e a serviço de quais interesses ele opera? A ausência dessa pergunta não é casualidade. É condição de funcionamento do sistema. Para que a indústria do corpo prospere, é necessário que o padrão seja vivenciado como natural, objetivo e universalmente desejável — e não como construção histórica, cultural e economicamente interessada.
Pesquisadores das Ciências Sociais e da Saúde Coletiva documentam, há décadas, os efeitos concretos dessa pressão sobre populações específicas. Mulheres, jovens e pessoas de grupos raciais ou étnicos minoritários relatam, com frequência desproporcional, insatisfação corporal associada à comparação com modelos hegemônicos de aparência. Transtornos alimentares crescem em prevalência. Procedimentos estéticos com riscos não negligenciáveis são adotados por pessoas cada vez mais jovens. O sofrimento produzido pela distância entre o corpo real e o corpo idealizado raramente aparece nas estatísticas do setor, que registra apenas o volume de faturamento.
Há, contudo, uma dimensão que merece atenção particular e que os dados econômicos também não capturam: a produção do corpo aceitável não afeta apenas os que se submetem aos procedimentos, às dietas e aos treinos. Afeta, de maneira igualmente profunda, aqueles que resistem ou que não têm acesso a esses mercados. O corpo que não frequenta academia, que não segue protocolo alimentar, que não passou por procedimento estético, torna-se, em determinados contextos sociais, um corpo que precisa se justificar. A omissão converte-se em escolha reprovável. O desinteresse em descuido. E o descuido, nessa gramática moral, em sinal de desrespeito consigo mesmo e com os outros.
Em Dourados, onde a identidade do agronegócio convive com a diversidade étnica e cultural de uma cidade formada por diferentes ondas migratórias, o corpo também carrega marcas de pertencimento. O corpo do trabalhador rural, endurecido por sol e esforço físico, coexiste com o corpo construído em academia, valorizado pelo mercado urbano. O corpo indígena, o corpo afro-brasileiro, o corpo da mulher periférica — todos circulam por uma cidade onde o padrão estético dominante foi importado de referenciais externos que pouco têm a ver com a diversidade local. A tensão entre esses corpos e o modelo hegemônico raramente se nomeia. Mas produz exclusão simbólica diária, silenciosa e eficaz.
A clínica estética, a academia e a dieta, tomadas individualmente, podem ser instrumentos legítimos de cuidado com a saúde e com o bem-estar. O problema não está na existência dessas práticas. Está na narrativa que as envolve: a de que o corpo é um projeto pessoal cujo sucesso ou fracasso depende exclusivamente do comprometimento individual. Essa narrativa retira do debate a dimensão coletiva da produção dos padrões estéticos, individualiza sofrimentos que têm causas estruturais e transforma em falha pessoal aquilo que é, na sua origem, uma pressão social organizada e economicamente rentável.
O poder que opera por meio do corpo aceitável é, talvez, o mais eficaz de todos os poderes contemporâneos, precisamente porque não precisa de decreto, de força ou de ameaça. Ele opera pelo desejo de pertencer, pela ansiedade da inadequação e pela esperança de que a próxima dieta, o próximo treino ou o próximo procedimento finalmente entregue aquilo que o mercado promete: aceitação, reconhecimento e paz consigo mesmo. Enquanto essa promessa se renova a cada ciclo, a indústria prospera. E os corpos continuam sendo produzidos — não como expressões livres de existências singulares, mas como respostas disciplinadas a uma norma que não foi escolhida por ninguém e que, por isso mesmo, parece pertencer a todos.
* Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.