Tem lugar em que o futuro chega de ônibus. Em outros, chega de trem-bala. No Mato Grosso do Sul, o futuro precisa primeiro pedir bênção ao bisavô, autorização ao compadre, carimbo do sindicato do passado e licença da vaca mais antiga da fazenda.
O conservadorismo sul-mato-grossense é tão zeloso que desconfia até do calendário. Segunda-feira já é modernidade demais. O ideal seria viver numa eterna quarta de 1957, quando tudo "era melhor" — inclusive aquilo que nem existia.
É um povo que chama qualquer novidade de "modinha". Energia solar? Modinha. Bicicleta? Modinha. Livro? Suspeito. Pensar diferente? Comunismo. Pensar igual? Tradição.
No Mato Grosso do Sul, o GPS não recalcula a rota. Recalcula a genealogia. Antes de indicar o caminho, pergunta: "Você é filho de quem?"
A política local parece reunião de condomínio de coronéis aposentados. Mudam os slogans, mas os sobrenomes continuam em cartaz há tanto tempo que já deveriam pagar IPTU sobre a própria influência.
E existe um talento raro para transformar qualquer debate em churrasco de nostalgia. Você pergunta sobre inteligência artificial, respondem com saudade da máquina de escrever. Pergunta sobre transição energética, oferecem um carvão "do bom". Pergunta sobre inovação, alguém aparece contando que o avô fazia isso "muito antes", embora ninguém consiga explicar exatamente o quê.
É um conservadorismo tão dedicado que trata o retrovisor como se fosse para-brisa. Depois reclama que vive batendo de frente com o século XXI.
Mas o mais curioso é que toda essa pose de guardião das tradições convive alegremente com caminhonetes cheias de tecnologia, celulares de última geração e internet via satélite. A modernidade pode entrar... desde que venha de banco de couro, cabine dupla e não faça perguntas inconvenientes.
No fundo, o conservadorismo sul-mato-grossense sofre de um medo crônico: descobrir que o mundo continuou girando enquanto ele estava parado admirando a própria poeira. E a poeira, convenhamos, é tão tradicional por lá que, se pudesse votar, seria eleita presidente da Associação de Defesa dos Bons Costumes.