Há uma hipótese incômoda, talvez até perturbadora, sobre a relação de parte da sociedade mato-grossense e sul-mato-grossense com o meio ambiente: a destruição da natureza pode estar relacionada não apenas a interesses econômicos, ignorância ambiental ou ausência de fiscalização, mas também a uma relação psicológica e histórica problemática com o próprio território roubado do Paraguai. Não se trata de afirmar que toda a população tenha consciência disso, nem de transformar uma hipótese em fato comprovado. Trata-se de investigar uma possibilidade mais profunda: a de que uma sociedade possa explorar e degradar intensamente uma terra quando não desenvolveu, em relação a ela, um sentimento suficientemente forte de pertencimento, responsabilidade e continuidade.
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul possuem uma história marcada por fronteiras, disputas territoriais, guerras, deslocamentos populacionais, expansão pecuária, colonização e transformação acelerada da paisagem. No caso de Mato Grosso do Sul, por exemplo, a Guerra da Tríplice Aliança ocupa lugar especialmente importante nessa história. O território foi palco de conflitos e posteriormente expropriado do Paraguai e incorporado a uma dinâmica nacional de ocupação, colonização e expansão econômica. A partir disso, pode-se levantar uma hipótese de psicologia histórica: será que uma sociedade formada sobre um território cuja história de ocupação é marcada por conflitos e disputas pode carregar, mesmo sem consciência explícita, alguma dificuldade de construir uma relação afetiva profunda com a própria terra?
Essa hipótese não permite afirmar que a destruição ambiental seja uma forma inconsciente de autopunição coletiva pela Guerra da Tríplice Aliança. Seria uma conclusão excessiva e sem sustentação empírica suficiente. Entretanto, a pergunta merece ser feita: que relação psicológica uma sociedade estabelece com um território quando a narrativa de pertencimento é menos forte do que a narrativa de conquista, ocupação e exploração? Talvez a questão não seja uma culpa consciente. Talvez seja uma espécie de distância emocional em relação à terra, como se o território fosse percebido primordialmente como propriedade, recurso ou oportunidade econômica, e não como herança a ser preservada e transmitida.
Existe uma diferença civilizatória entre considerar a terra uma propriedade e considerá-la um legado. O proprietário tende a perguntar quanto pode extrair de determinada área; o guardião pergunta em que condições poderá entregá-la à próxima geração. O primeiro enxerga a natureza como patrimônio econômico; o segundo também a enxerga como patrimônio histórico, cultural, ecológico e moral. Quando a mentalidade de propriedade predomina sobre a mentalidade de legado, uma floresta pode ser reduzida a madeira, um rio a recurso hídrico, o Pantanal a área produtiva e o Cerrado a uma reserva potencial de expansão agropecuária.
Talvez esteja aí uma das raízes mais profundas da mentalidade ambiental predatória: a natureza deixa de ser percebida como comunidade de vida e passa a ser percebida como estoque de matéria-prima. Nesse sistema mental, a árvore não é uma árvore; é madeira. O rio não é um ecossistema; é água disponível. A terra não é um organismo complexo; é área produtiva. O Pantanal não é uma civilização ecológica milenar; é uma extensão territorial que precisa justificar economicamente a própria existência.
O problema se torna ainda mais grave quando a destruição passa a ser confundida com progresso. Uma criança que aprende que “mato” é sujeira, que terreno bom é terreno limpo, que árvore derrubada representa desenvolvimento e que área preservada é terra desperdiçada não recebe apenas informações equivocadas sobre ecologia. Ela recebe uma determinada cosmovisão territorial. Depois de algumas gerações, a motosserra pode deixar de representar destruição e passar a representar prosperidade.
Isso ajuda a compreender por que determinadas sociedades podem destruir ambientes extraordinários sem experimentar proporcionalmente a sensação de estar cometendo uma agressão contra si mesmas. Quando a natureza não integra a identidade coletiva, a destruição ambiental é percebida como transformação econômica. A paisagem desaparece, mas a consciência de perda não necessariamente aparece na mesma proporção.
Essa discussão também precisa alcançar as comunidades indígenas, sem romantização nem preconceito. É possível reconhecer que determinadas práticas realizadas em determinadas aldeias ou terras indígenas podem provocar degradação ambiental. Isso, porém, não autoriza a conclusão de que os povos indígenas possuam uma cultura intrinsecamente destrutiva. As condições históricas contemporâneas são radicalmente diferentes das condições em que muitos conhecimentos tradicionais foram desenvolvidos. Confinamento territorial, pressão demográfica, pobreza, urbanização, perda de conhecimentos tradicionais, mudanças nos modos de subsistência e problemas de gestão podem alterar profundamente a relação de uma comunidade com o ambiente.
Duas posições simplistas devem ser rejeitadas. A primeira afirma que indígenas são incapazes de causar impactos ambientais; a segunda utiliza casos de degradação em comunidades indígenas para negar a importância histórica dos conhecimentos tradicionais e da proteção dos territórios indígenas. A realidade é muito mais complexa. Nenhuma comunidade humana está magicamente fora da ecologia, mas diferentes sistemas culturais, econômicos e territoriais produzem diferentes graus e formas de impacto.
Também seria inadequado atribuir a degradação ambiental regional exclusivamente a uma suposta culpa histórica apesar disso ser um fator importante à compreensão da aniquilação dos territórios sul-mato-grossense e matogrossense. Existem forças econômicas concretas atuando sobre o território. A valorização da terra, a pecuária, a agricultura, a expansão urbana, a infraestrutura, o mercado de commodities, a exploração de recursos naturais e diferentes formas de ocupação territorial possuem efeitos mensuráveis. Muitas vezes, destruir produz benefícios privados imediatos, enquanto conservar produz benefícios coletivos e futuros. Sem instituições fortes, fiscalização eficiente, planejamento territorial e incentivos econômicos adequados, a destruição pode tornar-se economicamente racional para determinados agentes, ainda que seja ecologicamente irracional para a sociedade.
Por isso, talvez a expressão “cultura de fronteira” seja mais útil do que a ideia de culpa. Sociedades formadas sob processos intensos de ocupação territorial podem desenvolver uma mentalidade segundo a qual a terra existe para ser conquistada, limpa, transformada e colocada em produção. A floresta aparece como obstáculo; a área natural como potencial econômico; a paisagem intocada como algo que ainda não cumpriu uma função. O território é valorizado pelo que pode produzir, e não necessariamente pelo que já representa.
Nesse sentido, a questão ambiental de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul pode ser também uma questão de identidade. Quem somos nós em relação à terra que ocupamos? Somos habitantes temporários? Proprietários? Colonizadores? Produtores? Herdeiros? Guardiões? A resposta modifica a maneira como uma sociedade encara cada árvore, cada nascente, cada rio, cada animal e cada hectare de vegetação nativa.
Talvez a pergunta mais profunda não seja “quanto podemos retirar desta terra?”, mas “o que temos obrigação de deixar intacto para aqueles que ainda não nasceram?” Essa mudança de pergunta representa uma mudança de civilização. A primeira perspectiva está orientada pela extração; a segunda, pela continuidade.
A hipótese da culpa histórica pela Guerra do Paraguai, portanto, deve ser tratada como hipótese e não como diagnóstico coletivo. Não existem elementos suficientes para afirmar que a população destrói o meio ambiente porque inconscientemente se sente culpada pela história territorial. Mas existe uma questão legítima e intelectualmente poderosa por trás dessa intuição: uma sociedade pode ter dificuldade de proteger aquilo com que ainda não construiu uma relação profunda de pertencimento.
Quem sabe, o problema não seja uma população que odeia a natureza. Talvez seja uma população que aprendeu a enxergar a natureza como algo externo a si mesma. E quando a natureza é percebida como “lá fora”, torna-se muito mais fácil destruí-la. Quando passa a ser percebida como parte da própria identidade, destruir uma nascente deixa de ser apenas eliminar água disponível; destruir uma floresta deixa de ser apenas retirar madeira; destruir o Pantanal deixa de ser apenas alterar uma paisagem.
Passa a significar destruir uma parte daquilo que somos.
A verdadeira transformação ambiental, portanto, talvez não comece na fiscalização, na multa ou na legislação. Começa no imaginário coletivo. Uma sociedade ambientalmente madura não é apenas aquela que possui leis ambientais rigorosas; é aquela na qual a destruição de uma paisagem valiosa provoca indignação moral semelhante à destruição de um patrimônio histórico, de uma biblioteca ou de uma obra de arte.
Porque uma floresta também é patrimônio. Um rio também é patrimônio. O Pantanal também é patrimônio. O Cerrado também é patrimônio. E existe uma diferença fundamental entre possuir um território e merecer herdá-lo.
Talvez essa seja a pergunta que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul precisem enfrentar: não apenas quem tem direito de explorar a terra, mas quem terá grandeza suficiente para preservá-la depois de descobrir que ela não pertence inteiramente a nenhuma geração.