Veias Abertas do Continente
Não será asfalto que nos unirá,
nem portos rasgando o ventre do Pacífico
para engordar navios sem bandeira.
Esta estrada que esquadrinham no mapa
— fria linha entre desertos e florestas —
será veia aberta ou artéria viva?
Pergunto aos que cavam a terra com unhas,
aos que carregam o sal do Chaco na testa,
aos pescadores cujas redes secam no cais vazio:
Para quem flui este rio de cimento?
O oceano que buscam não é de água salgada,
mas o mar sem fim da acumulação.
Oh, Rota Bioceânica, fantasma de progresso!
Teu nome é grito engasgado na garganta
do camponês expulso do seu chão virgem,
da comunidade indígena que vê passar
o rastro de ferro sobre raízes sagradas.
"Corredor do desenvolvimento", dizem...
Enquanto o lucro escorre por drenagens ocultas
rumo a paraísos fiscais.
Mas há outro mapa sendo traçado
— não por satélites nem corporações —:
É a rota humana que tece teias de solidariedade,
o caminho de mãos que cruzam fronteiras
carregando sementes, histórias, fogo.
Esta sim, bioceânica verdadeira:
Sangue, suor e sonho entrelaçado
de Buenos Aires a Antofagasta,
de Assunção ao coração da Amazônia que resiste.
Não levaremos nossa riqueza em contêineres
— minério, soja, lágrimas compactadas —.
Levaremos a sabedoria organizada das assembleias,
o conhecimento das águas que não se vendem,
o canto que transforma estradas em praças.
Que a nova geografia nasça da terra rachada:
Onde hoje passam máquinas vorazes,
passarão amanhã os povos em caminhada,
desviando cimento para construir escolas,
fundindo trilhos em enxadas,
transformando postos de pedágio
em abrigos para os filhos do vento.
O verdadeiro oceano a cruzar
é o abismo entre os que têm e os que constroem.
Quando a última ponte for erguida
sobre os escombros do capital,
veremos: não unirá oceanos,
mas margens há muito separadas
— irmão a irmão, trabalhador a trabalhador —,
e cada quilômetro terá o nome
de quem o suou, o sonhou, o ergueu.
Navegaremos, então,
em barcos de terra fértil,
rumo a um horizonte
onde o sol nasce
de todos os lados.