Tocando Agora: ...

Mato Grosso do Sul (por Tácito Loureiro)

Publicada em: 28/06/2025 11:14 - Literatura

 

Cântico do Chão Iniciático (Mato Grosso do Sul)

 

Não é só terra onde o gado passa,  

É Arca onde o Tempo se desenha —  

Fóssil vivo de sítios ancestrais,  

Onde os Terena guardam sua lenga-lenga,  

E o Guató entrelaça histórias no barro da memória.  

Sob o manto verde do Pantanal,  

O Reflexo dança – é a Alma plena:  

Água que não corre, mas medita,  

Guardando estrelas no seu contracasto,  

Como o silêncio que precede o canto do Cururu.  

 

Primeiro Véu: O Espelho das Águas  

(Ventre do Mundo, berço úmido e vasto)  

A garça é um hieróglifo ao vento,  

A piracema, um rito de ascensão —  

Quem vê o peixe saltar na corrente,  

Vê seu próprio espírito em expansão,  

Um chamado à resistência das raízes,  

Que, como o rio subterrâneo,  

Navega sem pressa, mas jamais desiste.  

 

Segundo Véu: A Dança das Raízes  

(Na sombra fresca da Serra de Bodoquena)  

O cedro fala em tom Terena antigo,  

Eco de flecha, tambor, voz serena.  

No barro da olaria, um gesto amigo  

Molda o Vaso que o Sagrado habita:  

Cada grafismo Kadweu é um perigo  

À mente estreita que não se agiganta!  

Ah, o Cururu à luz da fogueira,  

Não é só dança: é roda do Invisível —  

Os pés no chão batem a carreira  

Onde o Humano com o Eterno é possível,  

Como o encontro de ritmos no Festival América do Sul.  

 

Terceiro Véu: O Fogo que Decifra 

(No alvorecer do quebra-torto rude)  

A brasa crepita segredos no ar,  

O chimarrão é elixir de quietude.  

O boiadeiro, num silêncio a arder,  

Não conduzia gado: guiava sombras  

Por estradas de pó, a transmutar  

A matéria bruta em luz das alfombras —  

(Que são os campos de girassol ao sol,  

Ouro profano que vira Ouro interno  

Pra quem desata o nó, rompe o farol  

Do olhar comum, superficial e terno.)  

 

Desvela-te, Peregrino! 

O Pantanal não é só espelho: é Mente.  

Bodoquena não é rocha: é Altar.  

O Rio Paraguai, serpente lenta,  

É a Veia por onde o Mistério vai fluir.  

A onça pintada? Um mapa!  

(Suas manchas são constelações no chão  

A guiar quem souber perscrutar,  

Como os Terena lêem a terra,  

E os Kadweu traçam grafismos na alma.)  

 

A Chave Final: 

Procura não com os olhos, mas com o sopro.  

O segredo do Mato Grosso do Sul  

Não está fora, no horizonte de ouro,  

Mas no Pantanal que há em ti, oculto —  

Onde a onça e o jaguar se abraçam,  

Onde o chimarrão aquece a alma,  

E o canto de Canto da Terra ecoa:  

"É o meu Mato Grosso do Sul,  

Terra que é ventre e desenho,  

Cântico e cifra,  

Rio que corre no céu...  

E no teu centro suspira."   

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