Cântico do Chão Iniciático (Mato Grosso do Sul)
Não é só terra onde o gado passa,
É Arca onde o Tempo se desenha —
Fóssil vivo de sítios ancestrais,
Onde os Terena guardam sua lenga-lenga,
E o Guató entrelaça histórias no barro da memória.
Sob o manto verde do Pantanal,
O Reflexo dança – é a Alma plena:
Água que não corre, mas medita,
Guardando estrelas no seu contracasto,
Como o silêncio que precede o canto do Cururu.
Primeiro Véu: O Espelho das Águas
(Ventre do Mundo, berço úmido e vasto)
A garça é um hieróglifo ao vento,
A piracema, um rito de ascensão —
Quem vê o peixe saltar na corrente,
Vê seu próprio espírito em expansão,
Um chamado à resistência das raízes,
Que, como o rio subterrâneo,
Navega sem pressa, mas jamais desiste.
Segundo Véu: A Dança das Raízes
(Na sombra fresca da Serra de Bodoquena)
O cedro fala em tom Terena antigo,
Eco de flecha, tambor, voz serena.
No barro da olaria, um gesto amigo
Molda o Vaso que o Sagrado habita:
Cada grafismo Kadweu é um perigo
À mente estreita que não se agiganta!
Ah, o Cururu à luz da fogueira,
Não é só dança: é roda do Invisível —
Os pés no chão batem a carreira
Onde o Humano com o Eterno é possível,
Como o encontro de ritmos no Festival América do Sul.
Terceiro Véu: O Fogo que Decifra
(No alvorecer do quebra-torto rude)
A brasa crepita segredos no ar,
O chimarrão é elixir de quietude.
O boiadeiro, num silêncio a arder,
Não conduzia gado: guiava sombras
Por estradas de pó, a transmutar
A matéria bruta em luz das alfombras —
(Que são os campos de girassol ao sol,
Ouro profano que vira Ouro interno
Pra quem desata o nó, rompe o farol
Do olhar comum, superficial e terno.)
Desvela-te, Peregrino!
O Pantanal não é só espelho: é Mente.
Bodoquena não é rocha: é Altar.
O Rio Paraguai, serpente lenta,
É a Veia por onde o Mistério vai fluir.
A onça pintada? Um mapa!
(Suas manchas são constelações no chão
A guiar quem souber perscrutar,
Como os Terena lêem a terra,
E os Kadweu traçam grafismos na alma.)
A Chave Final:
Procura não com os olhos, mas com o sopro.
O segredo do Mato Grosso do Sul
Não está fora, no horizonte de ouro,
Mas no Pantanal que há em ti, oculto —
Onde a onça e o jaguar se abraçam,
Onde o chimarrão aquece a alma,
E o canto de Canto da Terra ecoa:
"É o meu Mato Grosso do Sul,
Terra que é ventre e desenho,
Cântico e cifra,
Rio que corre no céu...
E no teu centro suspira."