Tocando Agora: ...

A direita abusa impudicamente da mentira como estratégia política

Publicada em: 17/01/2026 06:39 -

 

Por Fernando de la Cuadra*

Há alguns anos alertávamos sobre o uso e abuso da mentira na política praticada pela direita e, especialmente, pela ultradireita. Poderíamos fazer um longo inventário de mentiras que foram difundidas neste último período pelos representantes da extrema-direita no Brasil e no mundo. Com efeito, a versão conservadora radical da direita vem utilizando a mentira não apenas para enganar cidadãos e eleitores, mas, sobretudo, com a finalidade de deturpar os fatos, construir uma realidade paralela e desarticular os adversários.

Tal como nos adverte o sociólogo brasileiro Jessé Souza em seu livro O Pobre de Direita, "a mentira é uma arma de guerra utilizada não somente contra o inimigo de ocasião, mas com a finalidade de adoecer a sociedade como um todo, levando-a a um estado de guerra latente e, assim, quebrar todos os acordos morais implícitos sobre os quais se apoia a vida social". Não se trataria, neste caso, de um simples recurso marginal, mas de uma técnica sistemática de dominação simbólica.

A fábrica de falsidades

Quando Trump anuncia o "sequestro" do presidente Maduro por ser um "narcoterrorista", a verdade é deturpada de forma tão grosseira que a maioria das pessoas com algum grau de apego à realidade fica perturbada ou paralisada. O aspirante a tirano planetário dedicou-se a mentir persistentemente: em seu primeiro mandato, o Washington Post contabilizou a cifra estarrecedora de 25 mil falsidades disseminadas em quatro anos. Como sinalizava Hannah Arendt, quando tudo parece mentira, nada pode ser refutado.

A extrema-direita mundial utiliza a mentira para desprestigiar a própria política democrática. A ideia de que "todos os políticos são corruptos" é a fórmula comum manuseada por figuras como Jair Bolsonaro, Javier Milei, Juan Antonio Kast ou Nayib Bukele. Eles se atribuem a qualidade de "antipolíticos" e acabam transformando-se em líderes autoritários que utilizam a violência contra quem pensa diferente, criando invariavelmente inimigos fictícios: migrantes, feministas, minorias sexuais, sindicatos e intelectuais.

O ecossistema da pós-verdade

Utilizando redes sociais, esse ecossistema comunicacional apela a sentimentos de raiva e ressentimento para atrair segmentos vulneráveis. Invocam lemas fáceis como "Deus, Pátria e Família" para seduzir públicos carentes de identidade. Com mensagens emocionais e agressivas, prometem uma prosperidade que se mostra vazia, mas que segue gerando esperança entre os desesperados.

A mentira provoca uma simplificação grotesca da complexidade da vida. O discurso sobre a meritocracia transformou-se na grande falácia destes tempos. Em última instância, a mentira cumpre a função de ocultar relações de dominação e desigualdades estruturais que não podem ser contornadas sem enfrentar as elites que concentram riqueza e poder. Portanto, a mentira não é um erro; é uma estratégia de conservação da ordem social.

A mentira em tempos de bolsonarismo

No Brasil, o bolsonarismo tornou-se um verdadeiro laboratório da mentira. O ex-capitão situou-se como um político "antissistema" que combateria a corrupção e o "fisiologismo" do Centrão. Tudo engodo. Bolsonaro foi o melhor cúmplice desse conglomerado, operando o nefasto "orçamento secreto".

Seu governo foi uma sucessão infinita de horrores: negacionismo na pandemia (causando mortes evitáveis), estímulo ao desmatamento na Amazônia e o retorno do Brasil ao Mapa da Fome. Ao final do mandato, questionou a idoneidade das urnas eletrônicas e tentou um Golpe de Estado em 2022.

Atualmente, seus defensores mentem descaradamente ao dizer que as conversas sediciosas eram apenas "conversa de bar". Um argumento burdo que, apesar das provas, ainda é aceito por uma parte significativa dos brasileiros.

Mas as mentiras caem por seu próprio peso. É só ver o destino patético de Jair Bolsonaro: o "mito" que empunhava fuzis e dizia que a Covid era uma "gripezinha" agora se queixa na prisão por ter azia, soluço e não conseguir dormir. Esse é o Bolsonaro real: um covarde dissimulado que nunca assumiu suas responsabilidades. Embora a extrema-direita continue mentindo sobre sua biografia, uma parte majoritária do país deixou de acreditar no mito fabricado e deparou-se com o homem real sem qualidades.

 

* Fernando de la Cuadra é doutor em Ciências Sociais, editor do blog Socialismo y Democracia, autor do livro De Dilma a Bolsonaro: itinerário da tragédia sociopolítica brasileira (editora RIL, 2021) e coeditor do livro EP Thompson no Chile: solidariedade, história e poesia de um intelectual militante (Ariadna Ediciones, 2024).

 

Compartilhe:
Comentário enviado com sucesso!
Carregando...