A universidade moderna, tal como se constituiu no Ocidente, é uma máquina de produção e validação de saber. Ela define critérios de cientificidade, formas legítimas de escrita, modos autorizados de argumentação, temporalidades específicas de pesquisa. Não é apenas um espaço neutro de circulação de ideias; é uma instância de normalização. Ela classifica, hierarquiza, certifica. Produz diplomas, títulos, especializações — e, com isso, delimita o que conta como conhecimento válido.
Quando os saberes indígenas entram nesse espaço, frequentemente são submetidos a um processo de tradução que os enquadra nas categorias já existentes: tornam-se “objeto de estudo”, “tema de pesquisa”, “folclore”, “etnoconhecimento”. O risco é que o encontro se converta em assimilação — uma captura epistemológica.
Se quisermos pensar outra possibilidade para Mato Grosso do Sul — território marcado por intensa presença Guarani e Kaiowá, entre outros povos — é preciso deslocar o problema da inclusão para o da transformação institucional.
Isso implica, antes de tudo, reconhecer que os saberes indígenas não são apenas conteúdos diferentes, mas regimes de verdade distintos. Eles articulam outras relações entre natureza e cultura, entre tempo e memória, entre espiritualidade e política. Não se trata apenas de “ensinar sobre” esses saberes, mas de permitir que eles interroguem os próprios fundamentos da universidade.
Como isso poderia ocorrer?
Primeiro, no nível curricular: não apenas criar disciplinas sobre povos indígenas, mas construir currículos coelaborados com lideranças e intelectuais indígenas, onde a oralidade, a narrativa, a experiência territorial e a cosmologia tenham estatuto formativo legítimo.
Segundo, no plano metodológico: aceitar que a produção de conhecimento pode ocorrer fora do modelo exclusivamente escrito e individualizado. A pesquisa pode ser coletiva, situada, vinculada a compromissos comunitários. A avaliação acadêmica precisaria reconhecer essas formas.
Terceiro, no plano político-institucional: garantir presença indígena não apenas como estudantes, mas como professores, pesquisadores, gestores. Não como exceção, mas como parte constitutiva da estrutura universitária. A transformação exige redistribuição de poder, não apenas reconhecimento simbólico.
Mas há algo ainda mais profundo. A universidade precisaria aceitar que o diálogo intercultural não é harmonioso por definição. Ele envolve conflito, tensão, desacordo. Um espaço verdadeiramente intercultural não é aquele que neutraliza as diferenças, mas aquele que suporta a fricção sem reduzi-la à norma dominante.
O desafio, portanto, não é adaptar os povos indígenas à universidade tal como ela é, mas permitir que a universidade se torne outra coisa no encontro. Isso exige que ela abdique da pretensão universalizante — a ideia de que existe uma única forma legítima de produzir verdade.
Em Mato Grosso do Sul, onde a história é atravessada por conflitos territoriais, violência e resistência indígena, essa transformação não seria apenas acadêmica; seria política e ética. A universidade poderia deixar de ser apenas uma instância que certifica saberes e tornar-se um espaço onde diferentes regimes de conhecimento coexistem sem hierarquização automática.
A questão final não é se os saberes indígenas cabem na universidade. É se a universidade está disposta a deixar de ser apenas um aparelho de normalização para tornar-se um espaço onde o próprio conceito de conhecimento é colocado em questão. E isso, evidentemente, implica redistribuir poder.