A estrada era um corte supurante na carne do cerrado. Eduardo sentia cada tremor do asfalto rachado através do volante gasto da sua carreta, uma extensão metálica dos seus próprios nervos. Há 30 anos, ele cortava o Brasil como uma faca cega, levando soja, levando minério, levando sonhos esmagados sob o peso do diesel e dos pedágios absurdos. O cheiro era sempre o mesmo: óleo queimado, poeira e uma desesperança ácida que impregnava até os dentes. "É o preço do progresso", diziam os letreiros desbotados à beira da pista, ao lado dos caminhões tombados e das cruzes de acidentes. Eduardo já não via progresso. Via uma ferida aberta, sangrando vidas e recursos, enquanto engordava bolsos invisíveis.
O chamado veio numa noite de chuva torrencial, quando a BR-163 se transformara num lamaçal traiçoeiro. "Pai... o ônibus... o acidente..." A voz da filha, Marina, ecoava como um grito abafado pelo temporal. Ele chegou ao local antes dos socorros. O cenário era um pesadelo esculpido em metal retorcido e lama avermelhada. Um caminhão de carga ilegal, sobrecarregado, tentara ultrapassar numa curva cega. O ônibus interestadual fora varrido para o barranco. Entre os destroços, Eduardo reconheceu a mochila de Marina, intacta perto de um corpo coberto. O cheiro agora era de chuva, terra molhada, ferro amassado e... sangue. Muito sangue. E o silêncio ensurdecedor que se segue ao horror. Naquele instante, o asfalto sob seus pés deixou de ser uma estrada; transformou-se no símbolo de um pacto podre, uma engrenagem que moía vidas para alimentar a ganância.
Anos se arrastaram. Eduardo, agora um fantasma de si mesmo, trabalhava num pequeno armazém ferroviário abandonado. Era um lugar esquecido pelo tempo e pelos políticos, cheio de ferrugem e memórias. Até o dia em que uma mulher diferente apareceu. Não tinha o terno caro nem o sorriso plástico. Vestia botas poeirentas e olhava os trilhos enferrujados com uma mistura de dor e determinação. Era a deputada Isabel, neta de ferroviários. "Essas ferrugens", disse ela, tocando um trilho com a mão, "não são sinal de morte, Eduardo. São cicatrizes. São prova de que aqui já fluiu vida, progresso *verdadeiro*." Sua voz não era de discurso; era baixa, firme, carregada do peso de quem lutava contra uma maré de interesses obscuros. Ela falou de números que eram facadas na lógica: um único trem de carga substituindo centenas de caminhões; um trem de passageiros rápido e seguro escoando pessoas como um rio tranquilo, não como sangue numa vala. Falou de custos de manutenção irrisórios perto do pesadelo rodoviário, do combustível poupado, das vidas poupadas. "As rodovias são como veias rompidas, sangrando o país. As ferrovias serão as artérias fortes, levando vida de volta ao coração do Brasil."
Mas os outros vieram. O "Senador da Logística", sorriso oleoso, palavras como mel. "Ferrovias? Nostalgia, minha cara! O Brasil é rodoviário! Moderno! Dinâmico! Investir em caminhões gera empregos!" Eduardo sentiu o cheiro de mentira, o mesmo cheiro dos gabinetes climatizados que aprovavam mais concessões de pedágios extorsivos enquanto ignoravam pontes caídas. O discurso do senador era um canto de sereia para os incautos, uma cortina de fumaça sobre os lucros obscuros das concessionárias, das montadoras, do lobby do diesel. "Dinâmico?", pensou Eduardo, lembrando da filha. "Dinâmico como um acidente." Ele viu a diferença com clareza brutal: enquanto os políticos comuns falavam de "geração de empregos" (empregos precários na beira da morte), Isabel falava de poupança de vidas, de eficiência, de futuro. Era uma matemática da alma, não do caixa dois.
A batalha foi feroz. Projetos de lei afundados em comissões, reportagens encomendadas ridicularizando as ferrovias como "coisa do passado", ameaças veladas contra Isabel. Mas ela tinha a arma mais perigosa: a verdade, e um exército de silêncios como o de Eduardo. Ele começou a espalhar a causa. Nas filas dos postos de combustível, nos botecos de beira de estrada, mostrava fotos antigas de trens cheios, vídeos de trens-bala japoneses. Comparava o preço de uma passagem de trem seguro com um ônibus caindo aos pedaços na rodovia esburacada. "Pensem", dizia, sua voz rouca ganhando força, pensem no que levamos para fora do Brasil por essas rodovias: minério, soja, nossa riqueza bruta. E o que entra? Peças superfaturadas, combustível caro, acidentes, e o lucro de uns poucos. O trem traria desenvolvimento para dentro. Ligaria o interior, escoaria nosso produto com nosso custo, traria turismo, vida! Era uma mensagem simples, repetida como o rufar de um tambor primitivo: Rodovias sangram, ferrovias nutrem.
A vitória, quando veio, não foi um estrondo, mas um gemido de metal novo sobre dormentes. O primeiro trecho da Ferrovia Integradora Centro-Oeste foi inaugurado. Eduardo estava lá, convidado por Isabel. Quando o primeiro trem de passageiros moderno silvou suavemente, deslizando sobre os trilhos como um raio de luz prateado, não houve discurso grandioso. Houve apenas o silêncio. Um silêncio profundo, sagrado, quebrado apenas pelo suave ronco da locomotiva e pelo choro contido de Eduardo. Não era o silêncio da morte da estrada, mas o silêncio do nascimento de uma nova possibilidade. Ele tocou o trem frio. Não cheirava a diesel, cheirava a... futuro. Um futuro onde Marina, talvez, em outra vida, chegaria em casa.
O Brasil não mudou da noite para o dia. As rodovias ainda sangravam. Mas uma nova linha traçava-se no mapa e na consciência nacional. Eduardo sabia, no seu íntimo, que as ferrugens nas velhas linhas não eram apenas lembranças; eram profecias. E os trilhos novos, reluzentes, eram mais do que aço; eram a materialização do caráter. Cada quilômetro assentado era uma batalha vencida contra a corrupção que se alimentava do caos rodoviário, uma declaração de que o Brasil podia escolher fluir com eficiência e dignidade, não morrer aos poucos num engarrafamento de interesses escusos. A ferrovia, ele percebeu, não era apenas transporte; era a espinha dorsal de um país que finalmente decidira andar ereto. E os políticos que a defendiam? Eram os únicos que ousavam sonhar com um Brasil que não fosse apenas grande, mas são. As rodovias continuariam, mas seu reinado de terror e desperdício tinha os dias contados. Linha por linha, trilho por trilho, o Brasil mais profundo, mais honesto, mais inteligente, começava a encontrar o caminho de volta. E o cheiro no ar, finalmente, era de esperança metálica e terra prometida.