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Ouro que Arde: Sob a Superfície Brilhante, o Agronegócio Brasileiro Enfia Raízes em Solo Frágil

Publicada em: 29/07/2025 07:32 - Meio Ambiente

 

Sob o manto dourado das safras recordes e do discurso triunfante, uma rachadura estrutural se alastra pelo coração do "celeiro do mundo". O agronegócio brasileiro, longe do apogeu inabalável pintado em relatórios de bolsa, revela sintomas inegáveis de uma decadência silenciosa, um esgotamento que vai muito além das flutuações de mercado. Não é uma crise passageira; é o desgaste de um modelo que atingiu seus limites físicos e sociais. 

A Ilusão dos Números Brutos:
Sim, as toneladas de soja e milho batem marcas históricas. Sim, as exportações enchem os cofres de dólares. Mas esse brilho ofusca realidades mais sombrias: 

1.  O Custo Oculto da Produtividade: o "milagre" agrícola repousa sobre solos exauridos. Estudos do Embrapa apontam que mais de 40% das terras agrícolas do Cerrado apresentam algum grau de degradação moderada a severa. A dependência de fertilizantes químicos (cuja volatilidade de preços explodiu com a guerra na Ucrânia) não é só um risco econômico; é um paliativo para um paciente em agonia. A produtividade por hectare, em culturas-chave, mostra sinais de estagnação preocupante frente ao aumento exponencial dos custos de insumos, energia e logística. 

2.  A Crise Hídrica Estrutural: o modelo "push to the limit" ignora a geografia do clima. A expansão frenética sobre biomas críticos para a regulação hídrica (Cerrado, Amazônia) está secando as próprias fontes que irrigam o agronegócio. O ciclo hidrológico alterado se reflete em "veranicos" devastadores no Centro-Oeste e enchentes catastróficas no Sul. A irrigação, solução imediata, torna-se um pesadelo de custo e disputa, com aquíferos como o Guarani sob pressão insustentável e conflitos por água se multiplicando no Matopiba. 

3.  A Bolha da Dependência Externa: o agronegócio brasileiro joga roleta russa com o mercado global. Concentrado em commodities (soja, milho, carne), sua saúde depende de fatores voláteis: demanda chinesa, surtos de aftosa, barreiras sanitárias e cambiais, guerras comerciais. A "vocação exportadora" tornou-se uma vulnerabilidade estratégica. Enquanto isso, o mercado interno de alimentos diversificados e de qualidade definha, com o aumento do custo da cesta básica batendo recordes consecutivos. 

4.  O Esgotamento Social e a Revolta do Campo: o "moderno" agro brasileiro é também o epicentro de conflitos fundiários explosivos. A concentração de terras atinge níveis medievais, enquanto assentamentos da reforma agrária definham por falta de apoio técnico e crédito. O êxodo rural não foi revertido; foi acelerado por um modelo que privilegia máquinas sobre pessoas. A imagem internacional do país sofre golpes diários com associações inapagáveis ao desmatamento ilegal e ao trabalho análogo à escravidão – manchas que já fecham mercados e afugentam investidores ESG. 

5.  A Inovação que Não Chega ao Chão (ou ao Solo): fala-se em agricultura 4.0, drones, IA. Mas a realidade predominante é de tecnologia de ponta aplicada a um modelo extrativista arcaico. Falta investimento maciço em bioinsumos, fixação biológica de nitrogênio, agricultura regenerativa e sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta) que poderiam restaurar solos e reduzir dependência externa. A pesquisa existe, mas sua adoção em larga escala é mínima frente à inércia do business as usual

O Canto da Sereia do "Agro é Pop": o marketing poderoso e o lobby político tentam vender a narrativa da eterna bonança. Mas os números contam outra história: a rentabilidade real do produtor médio encolhe ano após ano, engolida pela inflação de insumos e pela necessidade de expandir áreas apenas para manter o lucro – um ciclo vicioso ecológica e economicamente insustentável. O endividamento rural bate recordes, e o seguro agrícola, face a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, torna-se proibitivo ou inexistente. 

Conclusão: O Fim de um Ciclo (e a Semente de Outro?)
A decadência do agronegócio brasileiro não é um colapso repentino, mas um processo de erosão – do solo, dos recursos hídricos, da legitimidade social, da viabilidade econômica de longo prazo. O modelo que alimentou o PIB nas últimas décadas está esbarrando nos limites planetários e na revolta de uma sociedade que exige sustentabilidade real. 

A saída não é romantizar o passado, mas forjar um futuro radicalmente diferente: um "Agroecossistema" que valorize a regeneração do solo, a segurança hídrica, a diversificação produtiva, a justiça social no campo e a soberania alimentar. O conhecimento para essa transição existe. Falta a coragem política e a visão de longo prazo para superar a miopia do lucro imediato. O ouro do agronegócio arde – e sob as cinzas, talvez, possa nascer algo mais resiliente. O tempo, porém, é um recurso tão escasso quanto a água. 

Nota da Redação: este artigo se baseia em dados de instituições como Embrapa, IBGE, Conab, INPE, relatórios do Banco Mundial e FAO, além de análises de economistas agrícolas e cientistas do solo. A "decadência" referida é estrutural e de longo prazo, não negando a atual contribuição econômica do setor, mas apontando sua insustentabilidade crescente.

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