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O Gole Digital e a Colônia Hídrica

Publicada em: 21/02/2026 09:28 -

O Gole Digital e a Colônia Hídrica

 Por Onildo Lopes*

Recentemente, em sala de aula, fui questionado por uma aluna adolescente sobre o consumo de água das Inteligências Artificiais. Como utilizo IA para criar vídeos e experimentos visuais, a pergunta veio carregada de uma preocupação ecológica legítima, mas curiosamente seletiva: “Professor, isso não gasta água demais?”. Sorri. Ali percebi o triunfo de uma narrativa: o mundo se choca com o “gole digital” das máquinas, mas mantém silêncio sobre as vastidões de soja, milho e gado que retalham o coração hídrico do Brasil.

Ouve-se com frequência que a IA é uma “devoradora de água”. Afirma-se que cada interação com o algoritmo consome o equivalente a um copo d’água para resfriamento de servidores. A crítica é válida. Mas, segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, mais de 50% da água retirada no Brasil destina-se à irrigação agrícola. O abastecimento urbano responde por cerca de um quarto, enquanto a indústria consome menos de 10%. O que é, então, esse copo digital diante do oceano invisível que evapora nas planícies da monocultura?

Enquanto a tecnologia utiliza água para evitar o superaquecimento de seus circuitos, a monocultura e a pecuária de exportação operam uma sangria permanente em nossos aquíferos. Para cada quilo de carne bovina produzido, são necessários cerca de 15 mil litros de água; para cada quilo de soja, milhares de litros atravessam silenciosamente o ciclo produtivo. Trata-se da chamada “água virtual”, conceito difundido pela FAO: água que não aparece nas estatísticas portuárias, mas desaparece das nascentes.

O grande truque da economia brasileira é essa exportação invisível. Enviamos, todos os anos, trilhões de litros de água doce para o exterior sem que uma gota apareça na balança comercial. Quando um navio zarpa carregado de grãos, leva consigo o volume condensado de nossos rios. Vendemos água em forma de proteína e importamos dependência tecnológica. A conta ambiental permanece aqui; o lucro atravessa o oceano.

Não se trata de demonizar agricultores individuais. O que está em questão é o capitalismo agroexportador que transforma territórios em plataformas de extração. O Cerrado — reconhecido como a “caixa d’água do Brasil” — é tratado como estoque. A água deixa de ser direito e passa a ser insumo. Converte-se floresta em pasto, pasto em commodity, commodity em dólar. O ciclo da vida é substituído pelo ciclo da exportação.

Quem percorre a região de Dourados não precisa de imagens de satélite para perceber o processo. Onde havia mata ciliar protegendo nascentes, hoje se impõe a monotonia do deserto verde. A compactação do solo e o soterramento de fontes interrompem as veias que alimentam o país. Sem vegetação nativa suficiente, enfraquece-se a evapotranspiração que sustenta os chamados “rios voadores”. O resultado é um céu mais seco, uma terra mais quente e um futuro mais instável.

O debate sobre o consumo de água da Inteligência Artificial é legítimo. Mas isolá-lo do modelo econômico dominante é uma forma conveniente de deslocamento moral. O problema não é a existência de tecnologia avançada; é o uso de qualquer ferramenta — digital ou agrícola — a serviço de uma lógica que naturaliza a exaustão.

Ao fim, a questão não é escolher entre inovação e natureza. É decidir entre um modelo de acumulação e um projeto de civilização. A Inteligência Artificial pode servir ao cuidado ambiental, à gestão hídrica e à preservação; ou pode apenas acelerar a eficiência de um sistema extrativista. O que define isso não é o algoritmo, mas a ética coletiva que o orienta.

A pergunta que permanece não é quanto custa um “gole digital”.

A pergunta é: quanto custa um rio morto?

Essa resposta não aparece no mercado futuro de Chicago. Aparece no poço que seca, na chuva que não vem, no calor que não cede. O progresso que desidrata a vida não é avanço. É regressão travestida de modernidade.

O autor é professor

 

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