Reinaldo de Mattos Corrêa*
Nas vitrines digitais, nos auditórios corporativos e nas redes sociais, uma nova crença ocupa o espaço que durante séculos pertenceu aos templos. Em cidades grandes e pequenas, discursos sobre propósito, prosperidade e realização passaram a girar em torno de uma figura específica: o empreendedor. O fenômeno transcende a economia. Trata-se de uma transformação cultural profunda, na qual o empreendedorismo deixou de ser apenas uma atividade produtiva para adquirir contornos de religião secular. A promessa não é a salvação da alma após a morte, mas a conquista de reconhecimento, riqueza e liberdade ainda em vida.
Os sinais dessa mudança aparecem em toda parte. Livros de negócios são consumidos como textos sagrados. Palestrantes ocupam posições semelhantes às de antigos pregadores. Eventos corporativos reproduzem rituais coletivos de entusiasmo, nos quais multidões repetem frases motivacionais em busca de inspiração. Há uma liturgia própria, composta por expressões como “mentalidade vencedora”, “alta performance”, “escala” e “disrupção”. O vocabulário econômico passou a fornecer explicações existenciais para questões que antes eram discutidas pela filosofia, pela religião ou pela arte.
O curioso é que essa nova crença surgiu em uma época marcada pelo enfraquecimento das instituições tradicionais. Igrejas perderam influência em diversos segmentos sociais, partidos políticos enfrentaram crises de confiança e organizações comunitárias deixaram de exercer o papel central que possuíam no passado. Nesse vazio simbólico, o empreendedorismo apresentou uma narrativa sedutora: cada indivíduo seria responsável pelo próprio destino. O fracasso deixaria de ser consequência de estruturas complexas e passaria a ser interpretado como deficiência de esforço, disciplina ou visão estratégica.
A força dessa narrativa está na simplicidade. Em um mundo atravessado por mudanças tecnológicas aceleradas, desigualdades persistentes e insegurança econômica, a ideia de controle individual oferece conforto psicológico. O empreendedor aparece como herói contemporâneo, alguém capaz de enfrentar obstáculos e construir fortuna apenas com criatividade e dedicação. Histórias de sucesso circulam intensamente, criando a impressão de que a ascensão econômica está ao alcance de qualquer pessoa disposta a seguir a fórmula correta.
Contudo, a realidade revela uma paisagem mais complexa. Dados econômicos demonstram que a maior parte dos pequenos negócios encerra atividades nos primeiros anos de funcionamento. Muitos trabalhadores recorrem ao empreendedorismo não por vocação, mas por ausência de oportunidades formais de emprego. Ainda assim, o imaginário coletivo tende a destacar casos extraordinários, ignorando milhares de trajetórias invisíveis. O resultado é uma espécie de seleção narrativa que transforma exceções em modelos universais.
A dimensão religiosa desse fenômeno torna-se ainda mais evidente quando se observa a presença da culpa. Em tradições espirituais antigas, o fiel carregava o peso do pecado. Na religião secular do empreendedorismo, o peso recai sobre a produtividade insuficiente. Descansar pode gerar ansiedade. O lazer passa a ser visto como desperdício de potencial. Cada minuto precisa produzir resultado mensurável. A existência transforma-se em uma planilha permanente, onde até emoções são avaliadas segundo critérios de eficiência.
Existe também uma promessa de transcendência. Em vez de alcançar o paraíso, busca-se atingir a independência financeira. No lugar de milagres, surgem narrativas de crescimento exponencial. A figura do guru religioso cede espaço ao mentor de negócios. A peregrinação ocorre em feiras, congressos e encontros de networking. Até mesmo os testemunhos seguem estrutura semelhante: relatos emocionados descrevem uma vida comum que teria sido radicalmente transformada após a adoção de determinada metodologia.
Uma pergunta emerge desse cenário e desafia paradigmas profundamente arraigados: o que acontece com uma sociedade quando o valor de uma vida passa a ser medido mais pela capacidade de gerar lucro do que pela capacidade de produzir significado? Trata-se de uma questão que ultrapassa indicadores financeiros e alcança o centro do debate sobre civilização, identidade e futuro coletivo.
Especialistas em comportamento social observam que o empreendedorismo desempenha funções simbólicas importantes. Ele oferece esperança, incentiva inovação e estimula autonomia. Entretanto, quando convertido em dogma, pode reduzir a complexidade humana a métricas econômicas. Nem toda realização nasce de um negócio. Nem toda contribuição social pode ser convertida em faturamento. Professores, artistas, cientistas, cuidadores e trabalhadores de inúmeras áreas produzem valor que escapa aos critérios do mercado.
O desafio contemporâneo talvez não esteja em rejeitar o empreendedorismo, mas em reposicioná-lo dentro de limites mais amplos. A capacidade de empreender continua relevante para o desenvolvimento econômico. O problema surge quando uma ferramenta passa a ocupar o lugar de uma visão completa de mundo. Religiões tradicionais buscavam responder perguntas sobre sofrimento, sentido e pertencimento. O empreendedorismo, por mais poderoso que seja como motor econômico, encontra dificuldades quando tenta oferecer respostas definitivas para dilemas existenciais.
Ao final, a ascensão dessa religião secular revela menos sobre empresas e mais sobre carências coletivas. Em uma época marcada por incertezas, muitos procuram uma narrativa capaz de organizar o caos. O empreendedorismo ofereceu essa narrativa. A questão que permanece aberta é se ela será suficiente para sustentar não apenas mercados, mas também vidas humanas em toda a riqueza, fragilidade e complexidade que as definem.
* Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.